É um gráfico 2D com o tempo no eixo x e o preço no eixo y. Zonas mais escuras marcam níveis onde mais ordens de liquidação potencial estão concentradas. Em linguagem direta: ele mostra quantas posições seriam varridas se o preço chegasse ali.
Agregadores como a CoinGlass juntam dados de open interest de Binance, OKX, Bybit e outras. Eles fazem engenharia reversa do preço de liquidação de cada tier de alavancagem para estimar quantos USD em nocional seriam liquidados em cada nível. São estimativas — apenas a corretora sabe a posição e alavancagem reais.
Um magnet é um dos clusters mais escuros do mapa. O mercado tende a derivar para concentrações de liquidez — quando o preço alcança um magnet, as liquidações disparadas geram pressão a mercado que empurra o preço através do cluster.
Não. Ele diz 'se o preço for até X, este tanto de liquidação dispara', não 'o preço vai até X'. Mas dá uma leitura útil: quais níveis próximos podem agir como magnet e onde o momentum pode acelerar depois de um rompimento.
Três passos: (1) Identifique os maiores clusters de liquidação dentro de 5-10% do preço atual; (2) Decida se a sua entrada usa esses clusters como alvo ou como zona de risco; (3) Nunca coloque o stop-loss dentro de um cluster pesado — ele é varrido junto com as liquidações e o slippage é cruel.
O que o mapa realmente mostra
O mapa de calor de liquidação é uma sobreposição ao gráfico de candle que mostra, para cada nível de preço futuro, o nocional acumulado de posições alavancadas que serão liquidadas se o preço atingir aquele nível.
Em outras palavras: se você está olhando o gráfico do BTC perp da OKX e o mapa mostra uma faixa escura concentrada em US$ 67.500, isso significa que, caso o BTC chegue em US$ 67.500, aproximadamente X milhões de USDT em longs vão ser liquidados forçadamente — o que significa X milhões em ordens de venda a mercado batendo no book de uma vez.
Não é "previsão de suporte". É "se chegar lá, vai acontecer violência mecânica". A diferença entre os dois é o que separa quem usa o mapa bem de quem usa mal.
Como o mapa é calculado, e com quais dados
Plataformas como CoinGlass e Hyblock pegam dados de open interest (OI) por exchange, distribuição de alavancagem (estimada por histórico e padrões), e simulam: "se o preço cair X%, quantos % do OI vão ser liquidados?"
O cálculo não é exato porque eles não têm acesso direto aos preços de liquidação individuais de cada trader (essa info é privada nas exchanges). Eles estimam usando:
1. OI total reportado pela exchange (público via API).
2. Distribuição típica de alavancagem por usuário (das pesquisas e dados históricos pós-liquidação).
3. Os preços de entrada inferidos do livro de ordens em cada momento.
O resultado é estatístico, não determinístico. Pode ter erro de 20-30% no nocional projetado em qualquer ponto. Mas a forma geral do mapa (onde estão os aglomerados) é confiável.
Faixa quente e faixa fria: lendo as cores
Cores típicas (CoinGlass): roxo escuro = pouco nocional liquidável. Azul → verde → amarelo → laranja → vermelho = crescente nocional liquidável.
Faixa vermelha brilhante abaixo do preço atual: aglomeração de longs alavancados. Se o preço cair pra lá, eles são liquidados forçados → venda a mercado → preço pressionado mais pra baixo → cascata.
Faixa vermelha acima do preço atual: aglomeração de shorts alavancados. Se subir pra lá, short squeeze.
Cuidado com escala: o mapa do CoinGlass usa escala logarítmica por padrão. Uma "faixa um pouco mais clara" pode representar 10x o nocional de uma faixa "bem fraca" — não desconte só porque a cor parece moderada.
Um cluster brilhante só informa quanto de liquidação potencial está empilhado naquele nível. Não diz se o preço vai chegar lá, muito menos o que acontece se chegar. Cluster ignorado, preço virando no meio do caminho, cluster varrido e reversão imediata — tudo isso é rotina. Operar o mapa como sinal é ler "o que acontece se a condição se cumprir" como "a condição vai se cumprir". A leitura que serve é condicional: se o preço atravessar X, espere aceleração; se nunca chegar em X, o mapa não tem nada a dizer sobre a sua posição hoje.
Quanto peso o mapa merece no regime atual é coisa que você resolve sem a taxa de acerto de ninguém — basta manter o seu próprio registro. Toda vez que aparecer um cluster nítido, anote a faixa de preço do cluster, o preço no momento e o horário do snapshot; volte 24-48 horas depois e marque se o preço entrou na faixa, se atravessou ou repicou, e se o volume expandiu. Depois de uma dúzia de anotações você tem a sua própria leitura sobre quando esse gráfico vale alguma coisa — o que serve mais do que qualquer número que alguém te repasse. Dois cruzamentos que valem a pena anotar junto: para que lado o funding está pendendo, e se o cluster está decaindo (as posições por trás de um cluster antigo podem ter sido fechadas há muito tempo enquanto o mapa continua aceso).
A mecânica por trás da cascata de liquidação
Por que o preço "vai" pras faixas quentes? Por mecânica de mercado, não por mistério.
Quando uma posição alavancada é liquidada, o motor da exchange precisa fechar a posição a qualquer preço. Isso significa uma ordem a mercado do mesmo tamanho da posição, do lado oposto. Long liquidado vira ordem de venda a mercado. Short liquidado vira ordem de compra a mercado.
Se há 50 milhões de USDT em longs concentrados num nível, o preço chegando lá gera 50 milhões de USDT de venda a mercado num intervalo de segundos. O book não suporta — preço cai mais. Isso ativa o próximo nível de longs (logo abaixo). Mais venda forçada. Cascata.
O painel de liquidação histórica da CoinGlass mostra picos visuais — cada barra alta é uma cascata. Em 05/08/2024, por exemplo, o total do dia ficou em torno de 1,05 bi de USDT, com mais de 80% do lado long.
Caça de liquidação: quando as whales olham o mesmo mapa
Aqui o mapa fica "meta". Whales (carteiras grandes) também olham o mapa. Se elas veem uma faixa quente a 2% do preço, sabem que empurrar o preço pra lá é lucrativo: depois da cascata, o preço vai onde elas queriam, e elas podem fechar suas próprias posições com lucro.
Como elas fazem? Vendendo a mercado de propósito, em volume coordenado, durante janelas de baixa liquidez (madrugada BRT é a típica, porque US e Europa estão dormindo).
Isso significa duas coisas práticas:
(1) Se você está alavancado e seu preço de liquidação cai em cima de uma faixa quente, sua probabilidade de ser caçado é maior. Mover o stop pra antes da faixa, ou reduzir alavancagem, é defensivo.
(2) Faixas quentes em horários de baixa liquidez (sábado de manhã BRT, domingo cedo) têm probabilidade maior de serem caçadas. Não segure alavancagem alta atravessando esses períodos se sua liq cai na faixa.
Onde o mapa não serve
Erros frequentes que vemos:
"A faixa quente abaixo é suporte, vou comprar lá." Não. Faixa quente abaixo é onde os outros perdem dinheiro. Comprar lá significa comprar bem no meio da cascata de venda forçada — você compra de quem está sendo liquidado, mas o preço pode continuar caindo por momentum.
"A faixa quente acima é resistência." Pode ser, pode não ser. Se for short squeeze, o preço atravessa rapidamente, não respeita a faixa como teto.
"O mapa diz que vai subir." Não diz. Diz onde a violência pode ocorrer SE o preço chegar lá. Não diz se vai chegar.
Usar como único sinal. O mapa é contexto. Sua decisão de entrar/sair vem da sua tese principal. O mapa ajusta o tamanho e a alavancagem da posição.
O stop hunt do BTC em 14/05/2025, passo a passo
Em 14/05/2025 o BTC perp da OKX entrou na sessão asiática (21:30 BRT) girando pouco acima de US$ 102 mil. O mapa de calor naquele momento mostrava uma faixa claramente mais quente logo abaixo, concentrada perto de US$ 100.800 — o total em dólares acumulado numa faixa é sempre estimativa e não dá pra reconstituir depois, então o que interessa aqui é a posição da faixa, não um número em milhões.
Na virada da madrugada asiática, janela de liquidez fina, o preço desceu em ondas verticais até encostar na faixa. Ali a cascata começou: a venda forçada empurrou o preço para baixo dela em poucos minutos, e o episódio inteiro se resolveu dentro de mais ou menos uma hora e meia.
Ao amanhecer no Brasil o preço já tinha recuperado boa parte do movimento. Quem estava long acima de US$ 102 mil com alavancagem 20x — colchão de uns 5% — foi liquidado no caminho. Quem carregava 5x com entrada mais baixa viu o preço passar pelo colchão e voltar: susto, não liquidação. A diferença entre os dois não foi a leitura do gráfico, foi a alavancagem.
Vale cruzar o que você vê no mapa com a cobertura do dia seguinte — veículos em português como o Cointelegraph Brasil costumam registrar episódios assim. E quem tinha aberto o mapa antes de dormir teria visto a faixa montada horas antes.
Como encaixar o mapa no seu fluxo antes de cada ordem
A diferença entre os dois não foi a leitura do gráfico, foi a alavancagem.
Sugestão de fluxo de 5 passos antes de cada perpétuo:
1. Defina sua tese e direção (do gráfico técnico ou fundamental).
2. Calcule a distância de stop sensata (1,5% pra BTC) e o tamanho de posição pelo método do paradoxo do stop.
3. Veja onde fica seu preço de liquidação na alavancagem escolhida.
4. Abra o mapa de calor (CoinGlass tem versão grátis). Sua liq cai em faixa quente? Se sim, reduza alavancagem até que caia em faixa fria.
5. Coloque a ordem com SL/TP automáticos.
O mapa não vai te dizer "compra agora". Vai te dizer "se chegar nesse nível, vai dar ruim, dimensione antes". É um filtro de risco, não um sinal de entrada.
Pra próximo passo, leia long/short ratio vs Top Trader pra outro ângulo de leitura do posicionamento.